quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Você moraria no sul de Luxemburgo?






Quando o prédio da Universidade em que trabalho se mudou para o sul de Luxemburgo:







Abalou Bangu entre os funcionários!



Não por menos... Nós temos muita dificuldade de mudar nossas rotinas e não seria qualquer mudança. Por exemplo, no meu caso, eu morava a 10 minutos de bicicleta da Universidade, e quando a Universidade se mudou para Belval eu passei a precisar de 1h20 de transporte público para chegar lá! Transporte público em Luxemburgo daria um próprio post...



A mudança em si foi complicada para muitos funcionários. Mas o que mais pegou para muitos não foi somente a mudança, foi à ida para o “sul” de Luxemburgo, o tão temido sul... Cheio de estrangeiros, cheio de portugueses! Inclusive portugueses me falavam isso.



Sim, o que eu mais ouvia, era “você vai para o sul? Ai sério? Por quê? Não faça isso. Não vá para Esch-sur-Alzette!” Bem para onde fui.



Outro problema de Esch era a “criminalidade”. “É no sul que acontecem a maior parte dos crimes”.



Primeiro vamos ser claro em um ponto... “Crime” em Luxemburgo é principalmente “roubo a casas quando elas não estão ocupadas”. Ok, alguém entrar na minha casa e levar meus móveis second-hand ou no máximo minha televisão e não me encher o saco, Não apontar uma arma para minha cara? Ok, com esse risco posso viver.



Mas ainda fiquei com a pulga atrás da orelha e pesquisei no site da polícia de Luxemburgo sobre criminalidade em Esch-sur-Alzette. Resultado? O maior índice de crimes acontece na capital, Luxemburgo: 23% de todos os crimes do país. Em Esch são 6% e no resto do país 4%... Ok, eu consigo conviver com 2% a mais de criminalidade... Se considerar que antes eu morava na capital, eu moro hoje numa cidade muito mais segura.



De acordo com o relatório da OSAC em Luxemburgo “Violent crimes (homicide, aggravated assault, sexual assault) are uncommon” (Crimes violentos - homicídio, assalto, agressão sexual - são incomuns). As últimas estatísticas publicadas pela polícia luxemburguesa contam com um assassinato em 2013, por exemplo.



Aí fui mais longe... Pesquisei sobre criminalidade e regiões do país... Agora olhem para esse mapa... Me parece que o sul é tão mais perigoso que o norte?








Como vocês podem ver, a taxa de criminalidade no sul não é tão diferente da do norte. Sendo a capital a cidade com a maior taxa, não estranhamente, já que também tem a maior população do país. Mas Esch, a segunda maior cidade do país, é tão “criminosa” como algumas vilazinhas do norte e do nordeste. Obviamente, as cidades nas fronteiras tem maior índice de criminalidade. Nossos amigos ladrões alemães, franceses e belgas se interessam pelos móveis e eletrodomésticos luxemburgueses, apesar de que os “burgueses” os compram exatamente nesses países.



Luxemburgo é o vigésimo país do mundo com menor índice de homicídios de acordo com a United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC). O Brasil fica em 201 de 218 países.



Bom, mas porque estou falando de tantas estatísticas? Principalmente porque elas dão um pequeno alívio e “prova” do que realmente acontece em Esch-sur-Alzette: nada de grave.



A questão é, por que tantas pessoas vieram me alertar? Por que tantas pessoas tem preconceito com o sul de Luxemburgo? Porque se eu fosse para Differdange, Dudelange, Mondercange, etc, eu ouviria as mesmas coisas...



Provavelmente é uma questão histórica. O sul de Luxemburgo era onde (e em partes ainda é) se encontravam as grandes indústrias de metal e de mineração. E quem trabalhava nelas? Os estrangeiros, principalmente os portugueses. Muitos homens portugueses deixavam suas famílias em Portugal e vinham trabalhar nas indústrias e morar em cima de “Cafés”. Café é tipo um restaurante-bar que praticamente fica aberto o dia inteiro. Dá para tomar lá um café da manhã, mas também uma cerveja depois do trabalho.



Imagine como uma situação dessas – ficar longe da família, viver só, num quarto, trabalhando em indústria metalúrgica, com o clima e a cultura totalmente diferente do seu país de origem... Não é claro que isso te desestabilizaria? Mas logo veio a lei de “reagrupamento familiar” e os portugueses procuraram pelo país de Luxemburgo locais mais baratos para construírem casas. Logo, os portugueses se espalharam pelo país inteiro.



Então, lá fomos nós para Esch. E o que encontramos lá?



Muitos parques naturais e parquinhos lindos para o Ben brincar e fazermos trilhas:









Uma churrascaria portuguesa deliciosa, mas para aqueles que não comem carne, encontra-se também a melhor broa da redondeza. Olha aí o desespero para comer a broa.







Um restaurante delicioso, de um casal, italiano e brasileira, que viraram amigos.





Uma linda feira de Natal e um calçadão gigantes para os fãs de compras:









Uma padaria luxemburguesa tradicional que tem os melhores pães que já comi de Luxemburgo:





Uma piscina municipal:



Crianças jogando futebol na rua:


A Universidade de Luxemburgo, cheia de atrações para aqueles que ainda não a estão cursando.




Creches com 3 educadoras para 11 crianças. Em Luxemburgo é 2 para 12.


<b>creche</b> bumba2-<b>esch-sur-alzette</b>-luxembourg-kideaz.lu2



Em Luxemburgo, eu me tornei uma grande amiga da minha vizinha luxemburguesa. Nós adorávamos deixar docinhos na porta uma da outra, para quando abríssemos a porta, voilá, surpresinha. Quando o Ben nasceu, ela começou a deixar morangos. Quando passamos a frequentar a casa uma da outra e termos conversas mais íntimas, ela começou a falar da quantidade enorme de estrangeiros que tinha seu país. Contava dos velhos tempos, em que quase não havia estrangeiros. Me levou para um restaurante tradicional luxemburguês, porque aquele era bom, já que quase não iam estrangeiros. Eu me perguntava se apesar da minha pele morena e minha brasilidade, ela não me considerava uma estrangeira. Talvez o fato de que conversávamos em alemão, a fazia esquecer disso. 

Até a turma do Scooby veio para Esch!
 



Agora penso que ela provavelmente reproduz um discurso que começou lá na infância, e ela mal nota que na verdade, ela não tem preconceito com estrangeiros... Ela só fala aquilo, porque provavelmente muitas pessoas de seu círculo social falam. Se ela tivesse, ela não sairia com uma brasileira, 50 anos mais nova que ela.... Ela ainda convidou minha família brasileira para frequentar a casa dela e a nos levou num restaurante onde fizemos a maior folia... No fim ela me disse, que foi uma noite linda.



Fico pensando que muitas vezes nem estamos atento as crenças e discursos que compramos.... Mas talvez o mais importante não é levar a sério tais palavras, mas sim, as atitudes. A minha vizinha luxemburguesa é uma das pessoas mais maravilhosas que conheci.



Espero trazer uma pequena mudança nas atitudes das pessoas com essa pequena história da minha relação com Esch... A melhor coisa a se fazer, para aqueles que não gostam de Esch, é vir para cá e ver se realmente esse discurso de que Esch não é um lugar mágico para se viver é pisando nessa terra e frequentando os locais mais queridos de Esch.



Alias, o fato de ter tantos portugueses me deixa contente. Tem um pedacinho de Lisboa, Porto, Aveiro, Algarve, Braga na minha alimentação, no meu cabelo, nas conversas do parque, no meu sorriso.



Obrigada a todos que me mostraram que Esch é um ótimo lugar para se viver!

Beijos e um Feliz Natal!

Cíntia






Para saber mais sobre a emigração portuguesa:  
http://semanariocontacto.blogspot.lu/p/imigracao-lusofona-no-luxemburgo.html



Links usados para o texto:

















7 comentários:

  1. Boa tarde Cíntia, ganhou mais um seguidor, gostei muito do conteúdo. Falando sobre Luxemburgo, é um país no qual sempre leio matérias e confesso que gostaria de ter a experiência em passar um certo período ai, talvez até permanente se fosse possível. Você sabe como funciona a parte burocrática para imigração de Brasileiros para Luxemburgo? Parabéns pelo blog e desde já, agradeço!

    ResponderExcluir
  2. Blog fantástico!
    Parabéns.
    Conte-nos sobre cultos cristãos.
    Há protestantes em Luxemburgo?

    ResponderExcluir
  3. Olá Cíntia. Sou um admirador de Luxemburgo e agora seguirei seu blog. Tenho muita vontade de abandonar minha carreira de advogado aqui no Brasil e imigrar para seu novo país. Quem sabe desenvolva aí meus sites culinários.Poderia também seguir minha vocação pastoral evangélica em terras luxemburguesa.
    Difil conseguir imigrar para aí?

    ResponderExcluir
  4. Oi Cíntia! Escreve mais! Muito legal!

    ResponderExcluir
  5. Olá Cíntia, muito legal suas dicas. Sou do RJ, e fuçando sobre Luxemburgo, descobri seu Blogs.Hoje recebi uma ligação no meu celular e não atendi pois constava o nome de uma cidade diferente, pesquisando na web descobri que ficava aí em Luxemburgo, e acabei achando teu blogs. Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Olá! Meus parabéns pelo conteúdo, achei muito legal. Gostaria de saber que idiomas você fala e saber qual é o mais necessário a primeira instância, o luxemburguês ou o alemão. Também se puder dizer um pouco sobre intercâmbio de brasileiros no país, ficarei muito agradecido! Obrigado e muito sucesso!

    ResponderExcluir