segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Casais internacionais - que consequências tem essa mistura?




Conhecer a sogra e o sogro sempre é um episódio que envolve o parceiro (a) avisar seu companheiro (a) sobre algumas coisas que ele pode esperar e até muitas vezes dar dicas de como se comportar. Mas e se você não fala a língua dos sogros?

Momentos embaraçosos sempre vão ocorrer se você faz parte do grupo de “casais internacionais”. Já com os casais “nacionais” ocorrem, imagine com o do outro grupo.

Principalmente se você for de um país “menos desenvolvido”, a tecnologia do transporte público, de privadas e coisinhas pequenininhas não identificáveis vai fazer você virar motivo de piada!




Aqui em Luxemburgo, entre os amigos essas histórias são as mais contadas!

Luxemburgo é um dos países europeus com maior número de estrangeiros. Quase metade da população daqui são de estrangeiros! Algo muito comum de se encontrar em Luxemburgo são casais internacionais. Dos nossos amigos casais daqui, poucos são da mesma nacionalidade. Conhecemos uma alemã que conseguiu juntar a escova de dente com um francês, apesar de toda sua exigência culinária. Uma brasileira com um espanhol, uma martinicana com um islandês (eu mal sei como se escreve em português as nacionalidades deles), uma peruana com um canadense, um maltense (de Malta?) com uma polonesa, uma polonesa com um brasileiro, uma ucraniana com um romeno, uma indiana com um alemão e a mistura não para!

Um casal internacional tem alguns problemas (e alegrias) que um casal de mesma nacionalidade nem sempre tem. Aqui vão alguns deles:
1 – A língua
2 – A cultura
3 – Visitas aos familiares
4 – O sentimento de nação



O primeiro é a barreira da língua. Em que língua falar? Perguntas como estas podem passar pela cabeça do casalzinho: devo aprender a língua do meu parceiro (a)? Falamos em inglês mesmo? Em que língua falar entre nós quando tivermos filhos? Vou conseguir falar com meu sogro (a)? etc. 

Aqui em Luxemburgo muitos casais não falam a língua do parceiro (a). Afinal, quem quer aprender islandês (desculpem os islandeses)? Muitos não falam a língua dos filhos também! O que alias, é muito estranho. Os filhos de casais estrangeiros que nascem aqui aprendem luxemburguês quando crianças, e entre seus amigos falam em luxemburguês. Muitos são os estrangeiros que não falam o luxemburguês. Usualmente quem chega aqui faz aulas ou de francês ou de alemão. Então imagine você ver seu filho falando em outra língua com seus coleguinhas e você não entender nada? Para os filhos, é a maneira perfeita de fofocar na frente dos pais sem ser reprimido!


Fofoca sem repressão

Outro problema é a cultura. Um vem de um país católico onde casar é muito importante, outro acabou de sair do comunismo e acha tudo isso irrelevante, outro toma banho a noite, outro quando acorda, outro tem uma família que fala muito, às vezes muito alto, o outro tem uma família que se alguém fala é para pedir a manteiga. Uma cultura é ciumenta, a outra não. Uma cultura fala mais do que faz, a outra faz mais do que fala. E por aí vai! 

Visitar a família sempre é motivo de planejamento. Ainda mais se você mora na Europa e sua família na Ásia ou América – quanto tempo ficar? Aonde? Como lidar com o sogro e a sogra? Se não fala a língua então – quantos livros devo levar? Se tiver filhos então! O que levar para os filhos não fazer o casal passar vergonha num voo de mais de 4 horas?



Por último, nessa história toda, como que fica o sentimento de “nacionalidade” dos indivíduos da relação? Dificilmente uma pessoa que escolhe namorar alguém de outro país e até morar em outro país é muito apegada a tais sentimentos. Você começa a perceber que esse sentimento é realmente construído, pela escola, alguns pais, faculdade, propaganda eleitoral ou propaganda em geral e começa a se questionar até quando ele vale a pena, para quem e para o que. Assim como o quão real ou absurdo ele é.

Depois que você passa a conhecer profundamente outras culturas esse sentimento vai se dissolvendo. É isso que a maioria dos casais daqui relata. O que fica mesmo é a saudade das pessoas que você ama, de alguns trejeitos e jeitos de se relacionar, mas definitivamente você não sonha com a bandeira de seu país (ou seus governantes e políticas).

Na copa do mundo então isso é nítido de perceber. No meu caso aqui, eu realmente fiquei confusa para quem iria torcer. Por mim a Alemanha ou o Brasil poderiam ganhar que eu estaria contente. Claro, não precisavam nos humilhar também. Essa parte deu uma magoada. Muitos me condenariam por isso, mas já me sinto também “alemã”. Como também me sinto luxemburguesa. Bastante! O governo luxemburguês criou o OLAI que é projeto do governo em que você tem direito de assistir aulas sobre a história de Luxemburgo, fazer três cursos de línguas pagando somente 10 euros por cada e participar de um dia em que você conhece como funciona o sistema escolar, econômico, governamental do país. Ao fim do projeto você se sente muito mais parte do país do que poderia imaginar!

Isso também cria uma confusão. Muitas pessoas se definem pelo local em que nasceram. Se você não se define mais dessa forma, você parece ficar numa espécie de bolha anárquica flutuante. Talvez trabalhar para o Parlamento Europeu seria até uma terapia. 

Casais internacionais não é mais novidade, é reflexo da globalização, da diminuição de conflitos entre os países, assim como da diminuição de preconceitos! O que é uma ótima novidade. Hoje se é permitido trabalhar e viver em outro país com relativa facilidade (dependendo do país!) e apesar da burocracia com visto, nem sempre demora, para os estrangeiros conseguirem permissão de trabalho. 

No futuro o negócio vai ficar mais complicado ainda! Exemplo: Um casal – alemão e brasileira que moram em Luxemburgo, tem um filho que vai ter cidadania alemã, brasileira e luxemburguesa. Esse filho casa com uma tailandesa na Rússia. Como é que fica a nacionalidade do neto do casal? Confuso não?


Em alguns países, como Cyprus, ¾ dos casamentos são internacionais! Imagine o sentido de “país”, “nação” que o povo de lá tem? (link para o artigo)

Os países com mais casais internacionais da Europa são Liechtenstein, Luxemburgo, Cyprus e Suíça. Também, países pequeninos como esses, não é muito difícil ir para outro país bater perna e conhecer lá um gatinho ou gatinha.
Os suíços casam-se muito com alemães, franceses, italianos. Vocês já podem imaginar a razão disso.




Também há os casais internacionais com questões mais complicadas que simplesmente a paixão. Um passarinho verde me contou que há muitos europeus que se casam com mulheres de países mais pobres para ter uma bela empregada em casa. Existem sites especializados para encontrar parceiras russas, filipinas, ucranianas, vietnamitas, brasileiras, tailandesas para casar! Podem fuçar na internet que acham! Esse artigo também trata desse tópico.
 
Para alguns pesquisadores (ver link), restrições sociais tradicionais já vem se desmanchando há alguns anos, essa característica pode estar deixando alguns jovens se sentindo sem raízes e mais abertos ao casamento com alguém de um país diferente. Infelizmente ainda não há dados para saber quais são as consequências a longo prazo de pessoas desapegadas as tradições e aos seus países de origem. Provavelmente, não é nada muito grave. Talvez para os patriotas somente.




 
Outro aspecto das relações internacionais entre casais é o bilinguismo. No caso de Luxemburgo então, uma criança pode aprender até 6 línguas, se os pais falam outras que não francês, alemão, inglês e luxemburguês.

Se quiserem discutir o assunto, fica a pergunta: Qual a opinião de vocês sobre casais internacionais? 

Abraços!

domingo, 27 de julho de 2014

Sobre o direito de chorar dos bebês





Eu sei, eu sei, meus últimos posts foram sobre maternidade, bebês, mas pelo momento é o que estou vivendo full time.



“Bebês choram!" - Ouvi de uma colega de quarto na maternidade.



Na época não dei muita atenção. Muito menos pensei na quantidade de choro que seria e o que fazer para o bebê parar de chorar. Estatísticas revelam que um bebê de até 3 meses pode chorar entre 1 e 5 horas por dia... Ver link (em inglês - by the way - muito bom esse artigo).



5 HORAS??????????



Pois é, aí que está, quem disse que o bebê precisa parar de chorar se não há aparentemente nada de errado com ele?  - Fralda trocada, amamentado, nenhum desconforto, aquela lista de sempre...



Mas não, eu cheguei em casa da maternidade e a qualquer sinal de choro eu me desdobrava em 1000 para o choro cessar. Depois da lista verificada, era sair para passear, dançar para ele, cantar, pegar no colo, abraçar, dar beijinhos, me fazer de pateta, fazer o pai dele de pateta e por aí vai... Algumas vezes, nada funcionava.

Em 1, 2 e 3 Buaaaaaaaaa



Em uma situação em que eu e papis não sabíamos mais o que fazer para cessar o choro, resolvemos preparar o jantar ao som musical estridente do pequeno Benjamin. O colocamos na cadeirinha, trouxemos para perto de nós, para ele observar que estávamos ali e preparamos a janta, ou melhor, o pão com queijo da noite porque estava difícil ir para o mercado nas primeiras semanas.



Depois de 15 minutos de choro, o Benjamin para. Nesse momento já estávamos sentados comendo, afinal, não foi tão difícil preparar “os restos”, ele nos olha e sorri. Um sorriso muito lindo, calmo e tranquilo. E passou a “janta” com nós, ali, do ladinho, nos observando, nos ouvindo e às vezes soltava esse sorrisinho fofo.

Sorrisinho do Benjamin




Fiquei pensando no porque nós temos tanto medo do choro. Alias, eu tenho medo. O Dani lida muito melhor do que eu com choros. Ele vê o choro como uma das poucas formas que o Benjamin tem de se comunicar com nós (e até com ele mesmo, vai saber o que estava acontecendo dentro de seu corpinho). A não ser a outra forma que ele é mestre, que é abrir a boca e fazer um som tipo de cachorro babando - fome!



Os pais interpretam de mil formas um choro de bebê. E sentem essa necessidade de interpretar. Mas precisamos realmente identificar todo os choros do bebê? Dificilmente as pessoas deixam de fazer as discussões mirabolantes sobre o que está acontecendo com o bebê. Até passar o choro, ninguém chegar a conclusão alguma e seguir em frente!



O mesmo fazemos com adultos... Um adulto que sofre precisa rapidamente se livrar desse sofrimento. Tristeza é tratada com medicação hoje, e não com afagos, solidão, choros na cama, desabafo com um bom amigo, terapia... Tristeza passa, faz parte da vida e a melhor maneira de conviver com ela é a vivendo. Não há razão alguma para se livrar rapidamente dela. Ela é um sinal de algo. Poderíamos tentar entender o sinal ou caso seja irreconhecível, chorar aos prantos também funciona e muitas vezes, alivia.






Parece-me que o maior medo dos pais é que o bebê esteja sofrendo quando está chorando. E que isso vai causar um dano psicológico irreparável. Novamente, isso é uma interpretação nossa. E mesmo que ele estiver sofrendo (se não estiver doente, verificar lista, lista, lista, o tempo todo, não se esqueçam dela), não é nosso papel também ensiná-lo a lidar com seu sofrimento? Talvez o deixando um pouco sozinho, ou o abraçando, o segurando, até o choro passar? Só estar ali do ladinho, não o embalando, cantando ou fazendo qualquer coisa para ele parar...


Buuuuaaaa 2


Um bebê não vai deixar de confiar em seus pais, se quando estiver aprendendo a andar, ele cair e o pai não ver. Ele vai continuar tentando aprender a andar, e vai continuar amando o pai. Da mesma forma, não vai deixar de amar os pais se os pais não conseguem cessar seu choro.


Quem já não viu uma cena dessas e condenou os pais? É... Isso mudo depois de ser pai...



Às vezes penso que um bebê consegue quebrar qualquer teoria ou "verdade" aprendida nas universidades. Um bebê definitivamente é muito mais que um pacote de “comportamentos”. Ainda bem que ele é ainda um pacote de “desafios”.


Nos desafiando há 7 semanas!


Viva o choro! Que todo mundo tenha o direito de sofrer e aprender a lidar com as dificuldades...


Fica a dica - ótimo texto, recomendado pela minha amiga Renata Gomez "Abrace o bebê chorão":
http://vilamamifera.com/cafemae/abrace-o-bebe-chorao/


MoMiS




sexta-feira, 11 de julho de 2014

Benjamin visita o hospital e exame detecta culpa de mãe


Jamin de mal com a vida

 
Entra no carro e começa a matutar



Jamin chega no hospital

As mães ocidentais tem mania de sentir muita culpa. Foi o que a médica do hospital infantil de Luxemburgo me disse ontem.

Depois de um dia em que o Benjamin parecia ter passado pela pior das guerras, de tanto sofrimento, choro e berreiro, nós resolvemos ir para o hospital para ver o que estava acontecendo com nosso bebê que em geral (considerando suas 4 semanas) é um ser muito bonzinho... E comilão!



Depois de umas 7 horas de choro, foi entrar no carro que esse ser resolveu virar um anjo. Olhava tudo em volta, chegamos no hospital e ele praticamente cumprimentou os médicos. Eu e o Dani estávamos assim:




Já esperava ouvir um sermão dos médicos “Temos um monte de crianças doentes aqui e vocês trazem esse bebê que está quase dando uma palestra sobre como atingir o nirvana?”...

Mas não... Os médicos nos acolheram como se o Benjamin realmente tivesse sido ferido em combate.

Uma médica o examinou, fez alguns exames, disse que talvez pudesse ser gases. Gases... É a palavra e o palpite que mais escuto por um mês. Gases é o “sistema” para os bebês, tudo é culpa dos gases... Assim como quando ninguém sabe corrigir um erro nos corredores burocráticos, o culpado é o sistema.

Como a médica francesinha muito gentil, vale dizer, não tinha certeza, ela chamou uma médica mais experiente.

A médica chegou, conversou com o Benjamin, o Benjamin jogou seu charme e sorriso eu com a cara assim:



Ela olha para nós e fala: Seu bebê está perfeitamente saudável. Provavelmente está passando por um growth spurt. Não sei exatamente a tradução para o português, mas eu diria um estirão de crescimento. No link está a explicação (em inglês) do que é isso. Resumindo, ela disse que ele deve estar aprendendo coisas novas, fazendo novas conexões neuronais e isso gera um estresse muito grande ao bebê. A forma que ele sabe lidar com isso? Peito e choro. E voilá. Meus peitos viraram chupeta ontem.

Eu que sempre estudei somente o “comportamento” fiquei checando o dia inteiro o que eu poderia ter feito para ele estar daquela forma – fralda suja? Fome? Algum desconforto? Medir febre? Frio? Calor? Quer colinho? Carinho?

O Dani examinando as mesmas “variáveis”...

E aí vem a médica e diz: não é culpa de vocês... O Ben tem que lidar com seu crescimento, com novas informações... Nós também não ficamos ansiosos e nervosos diante de novos desafios? Mas nós temos outras maneiras de lidar com isso...

Por tanto tempo negligenciei variáveis que não estão ao meu alcance. Sim, aprendemos a nos culpar por tudo facilmente. Principalmente mães. Que cultura é essa que gera culpabilidade para assim educar nossas crianças? Não seria bom ter clareza daquilo que realmente é nossa culpa e daquilo que não temos controle? Sim, nem tudo temos controle. E saber disso, relaxa e traz mais paz para nossas vidas. Apesar de parecer o contrário, é muito importante saber lidar com a “falta de controle”.

Outra coisa que a médica falou foi: “Não, seu leite não é fraco. É outra coisa só vivida por mulheres ocidentais. Não existe leite fraco, seu leite é perfeito para o bebê. Nós que nomeamos “o bebê pega o peito nervoso”. Ele não está nervoso, ele está reagindo ao seu instinto”...

Instinto... Essa mulher seria massacrada na academia... Ao mesmo tempo, foi uma das poucas pessoas que acalmou esses dois pais de primeira viagem e trouxe relaxamento para nossos corpos, para assim continuarmos nutrindo e dando muito aconchego ao pequeno Jamin.

Achei tão interessante os cuidados que eles tiveram com nós. Em nenhum momento eles nos acusaram de estarmos exagerando. Eles examinaram o Jamin, com todo cuidado e levaram muito a sério nossos sentimentos e medos em relação ao que poderia estar acontecendo com o pequeno. Fiquei muito contente com o atendimento, o tempo dedicado dos médicos e o remédio de tranquilidade (não é Rivotril, nem Dramin hein povo, chama-se conselho aqui hihihihi) que nos deram.

Voltamos para casa felizes, o Jamin dormindo e comemos um kebab na volta... Sem eu ficar matutando se aquilo causaria cólicas no pequeno ou não. A noite dei o peito e disse “hoje você vai experimentar comida turca, vamos ver o que você vai aprender com isso, espero que seja bom para você, como foi para mim”.

Dica de leitura para as mamães, recomendado pela psicóloga Celina Lazzari (obrigada Ce, adorei!):

 
Beijos

Cíntia