domingo, 5 de janeiro de 2014

Tirando férias no Brasil!





- Eu entrei no avião e comecei a chorar.

- Tadinha, por quê? – Café da Je.

- Chorar é pros fracos – diz Gabriel.

- Ai, eu não sabia quanto tempo eu ficaria sem voltar ao Brasil. E foram tão bonitos todos, mas todos os meus dias nessas férias lá, que achei que o comportamento mais fácil de apresentar numa poltrona de avião, dada a minha falta de mobilidade, era chorar. Então chorei bastante.

- Mas você não queria voltar para a Europa? – Café da Je.

- Pois é, decida-se. – Gabriel.

- Aí que está! Eu queria! Lógico que eu queria. Tenho tanto e tantos lá também. Eu vivo num conflito entre dois mundos. Meu amigo da faculdade já dizia isso, que eu nunca saberei onde será melhor morar, porque nos dois mundos eu tenho muita coisa boa.

- O que você vai fazer então? – Café.

- Não sei, existe algo a ser feito? Existe alguém vivendo numa situação que ela ache a mais perfeita possível durante um tempo relativamente grande de sua vida? Se sim, pode me passar o Face dela?

- Não conheço. Também não. – Café.

- Eu. – Gabriel.

- É mesmo??? – todos.

- Claro que não. – Gabriel com sorrisinho malicioso.



Aspectos positivos das férias:

1 – Não há nada melhor que falar o dia inteiro sua própria língua. Nisso sou metida como os franceses, acho o português (brasileiro, desculpe caros coleguinhas), a língua mais linda que existe! E claro é muito mais fácil falar sua própria língua, então deu para descansar bastante de um país com três línguas oficiais.



2 – Rever a família e os amigos. Que beleza ficar o dia inteiro conversando, batendo papo, inventando tópicos, se elogiando, se abraçando. Há algo nas conversas entre brasileiros de muito interessante! Ou talvez é porque nós nos abrimos mais aos amigos e família.




3 – Comida brasileira. Comi igual uma louca todos os tipos de frutas e saladas que vi na minha frente. E claro, quando podia, se não era comida de mamis, eu ia logo para um restaurante em quilo... Que falta pesar seu prato não faz!





4 – Desabafar, chorar, e revelar seus problemas com amigos e familiares. Sentir apoio, crítica, carinho daqueles que você ama.



5 – Ir à praia, piscina, comer milho de praia, açaí, água de coco, pular ondinhas, mergulhar, fazer caminhada na areia.





6 – Andar na Avenida Beira-Mar bem na hora do por do sol, com mil pessoas andando com você, correndo ou passeando.





7 – Ver os bebês dos seus amigos interagindo e crescendo.





8 – Bagunça brasileira, todo mundo falando ao mesmo tempo, alguns estirados no sofá dormindo, outros rindo e conversando, outros brincando, outros reclamando! Ausência de regras! Delícia.



Aspectos para lá de negativos das férias:



1 – Notícias de jornais: corrupção, aumento de impostos, bundas e peitos, assaltos e futebol. Que mais o Brasil tem??? Por favor...



2 – Trânsito para ir às praias! Inventamos a paciência, não é possível!

Foto tirada do site: http://balaiodesiri.blogspot.com/2010/12/campanha-venha-para-florianopolis.html


3 – Calor de 40 graus, ambiente úmido, sem vento. Isso foi em Joinville :)




4 – Assédios de verão potencializados. Por favor, as mulheres querem sossego. Não há nada que podemos fazer se ouvimos buzinadas e gritos de “gostosa”. Não vamos chegar perto do seu carro e dizer: - Obrigada pelo elogio, não escuto nunca isso, você pode me passar seu Face?



5 – Ir no INSS... Não adianta, não tem uma vez que eu não vou lá que não saio irritada! 

Você já teve a sensação de que pertence a qualquer lugar do mundo?
Acabou as férias, fui!


Cíntia

sábado, 7 de dezembro de 2013

Um ano de Grão-Ducado




Um ano atrás defendi minha dissertação de mestrado e no dia seguinte me mudei para um pequeno país da Europa, que tive que pesquisar no Wikipédia para saber o que diabos tinha lá, chamado de o Grão-Ducado de Luxemburgo.

Aqui não poderia ter rei, ninguém é rei de um país de 500 mil habitantes, o mesmo número de habitantes que Florianópolis, no Brasil. Então ele é Grão-Duque, o único do mundo ainda, o que torna ser rei fora de moda. Nem com Arquiduque ele precisa disputar mais.

Há um ano, cheguei nessa terra nobre com mil expectativas de trabalho, vida pessoal, e vida social. Todas elas acabaram por me surpreenderem. Putz, nenhuma foi como eu planejei ou imaginei.

Como diz meu caro amigo (quem dera) Rubem Alves: “Eu cheguei aonde cheguei porque tudo que planejei deu errado!”.

Retrospectiva de 2013:

1 – Eu adoro neve, por 2 semanas, por 4 meses me dá raiva e falta de vitamina D.

2 – Fazer bons amigos é sim fácil, pelo menos no Grão-Ducado, há tantos imigrantes carentes de amigos que você acaba se tornando um elo de apoio social.







3 – Às vezes você tem que tirar da sua vida, pessoas que não te fazem bem. Você pode até ajudar no começo, mas se a pessoa não quer mudar, você não precisa se dar uma de Pequeno Príncipe. Amigos são para te fazer bem...

4 – Não é porque você é brasileiro, que se encontra com outro brasileiro no exterior que vai amá-lo incondicionalmente. Às vezes é totalmente o contrário!! A garota da Malásia pode ter muito mais a ver com você...

5 – Você nem sempre tem controle da vida... Fato. Passei anos aprendendo sobre “controle” e a natureza mais sábia e bem-vinda mostrou outras variáveis incontroláveis, como a morte. Nem tudo que você come, faz e preveni, garante a sua vida ou daqueles que você queria que tivessem vindo ao mundo...

6 – Verão na Europa é definitivamente maravilhoso...

 


7 – Festivais, festas e confraternizações grão-ducais espalham alegria e diversão de uma maneira arrebatadora...



 




8 – Não há emprego para todo mundo no Grão-Ducado.

9 – Há muitos mendigos e usuários de drogas no Grão-Ducado.

10 – Uma população de 537 mil pessoas no fim de semana, aumenta para 750 mil no meio da semana.  São os chamados de frontaliers – os amigos da França, Bélgica e Alemanha que vem aqui desfrutar dos bons salários, mas continuam pagando os bons aluguéis de seus países. 

11 – Luxemburgo é um país onde 71% dos assalariados não tem a nacionalidade do país em que trabalham.

12 – O Grão-Ducado é um país em que em 2060 vai quebrar, pois não terá dinheiro para pagar todos seus aposentados, inválidos, assegurados socialmente, funcionários públicos, etc., de acordo com uma economista francesa muito elegante, de uma palestra que assisti na Câmara do Comércio. Como os europeus adoram uma guerra, melhor começar a pensar no Plano B. 

13 – Posso trabalhar em português para portugueses e brasileiros conhecendo a pessoa certa, numa hora bem difícil da vida de uma mãe. Obrigada Teresa!

14 – Luxemburgo é um país em que se fala um francês muito lindo e devagar, tornando a vida do imigrante mais fácil para logo aprender!

15 – Luxemburgo é um país em que falo com o médico em alemão, com alguns amigos em inglês, com a vendedora em francês, no trabalho em português e tenho que fazer caretas do tipo “What the fuck?” quando escuto luxemburguês. 

16 – Estar na Bélgica, Alemanha e França em 20 minutos.

17 – Dar a oportunidade do pai e da mãe verem pela primeira vez na vida neve. Vê-los acordados às 7h da manha de pijaminhas olhando a neve e quase batendo palmas. 

18 – Receber a irmã e fazer trilhas incansáveis de papos e filosofia no pior dia de frio.



19 – Receber os amigos brasileiros na primeira vez em que eles vêm para a Europa. Ver o amigo engenheiro olhando os cantos mais obscuros de sua casa e calculando como funcionaria isso no Brasil, ver a amiga enfermeira encantada com o sistema de saúde do Grão-Ducado. Ver os dois em uma festa medieval alemã felizes atacando as salsichas e batatas.

20 – Sentir muita falta do Brasil, da família e amigos que estão lá, e bolar planos malignos para juntar os dois mundos e ficar com o melhor deles em qualquer lugar que seja...

O que virá em 2014?

- Quando é essa festa com salsichas e batatas? – Café da Je.
- Em julho.
- Putz... Bem quando é a copa do mundo no Brasil... – Café da Je.
- Está vendo porque precisa se juntar esses dois mundos?
- Verdade... Ei, porque toda vez que escrevemos Grão-Ducado, o corretor muda para Grão-de-bico? - Café da Je.
- Porque nem ele entende como pode ainda nesse mundo moderno existir uma coisa como essa.



Cíntia

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Os cabelos da mineira


Eu sei que ela é carioca...
Eu nunca pensei que um cabelo feminino mexeria tanto com meus sentidos... Eu via tantos cabelos no Brasil, das mais variadas cores e ondas, tamanhos e temperaturas... 

Ontem eu estava num ônibus, ou autocarro, como venho dizendo ultimamente e vi uma jovem aparentemente normal até ela começar a mexer com seus cabelos. Ela passava as mãos neles de uma forma que parecia que eles a protegiam do frio, dos outros e das inseguranças...

De repente, a jovem começou a ficar mais bonita ainda. Um sorriso escapou, o cabelo se tornou mais esvoaçante e ela parecia estar unicamente ali no ônibus para fazer as pessoas felizes.

O que me dei conta é que ela parecia me acalmar. Ela me lembrava do Brasil. A sua maneira de passar as mãos no cabelo, a delicadeza de seu sorriso, o charme de todo seu ser me era comum. Comecei a me perguntar se ela era brasileira. Não é tão difícil assim encontrar brasileiros pelo Grão-Ducado.

Uma sensação de alegria tomou conta de mim. Imaginei meus amigos e os charmes que eles têm. Eles falando em “brasileiro” com seus sotaques mais diferentes. O calor, a água de coco, as risadas e os bares cantando.

Alemão aproveitando a água de coco


O cabelo da menina era de um castanho bem claro, bem liso por fora e ondulado por dentro. Muito brilhoso, sedoso, bem cuidado e encantador. Talvez porque o cabelo era parte de um ser tranquilo, sorridente, charmoso.

Pensei: o que há no brasileiro (a)? Sou eu que os vejo assim tão interessantes, por ser brasileira e sentir algo de “casa” perto deles quando estou morando fora? Os portugueses, alemães, franceses sentem-se da mesma forma que eu quando veem um compatriota? Ou eles realmente têm algo de diferente?

Quando alguém me pergunta aqui em Luxemburgo:

- De onde você é?

Eu sempre digo com um tom de alegria e orgulho: “Do Brasil”.

Mas da onde vem isso? Quem criou esse orgulho? Será que é porque nasci na época da Ditadura e a creche e a escola fizeram um bom serviço ao Estado?

Inverno na Bahia!

Mas meu cunhado alemão nasceu no DDR (Deutsche Demokratische Republik – digamos assim, a ditadura comunista alemã) e nem por isso sente essa paixão pelo seu país.


O que é muito frequente aqui também é quando digo que sou brasileira, sai um sorriso daquele (a) que perguntou: “É mesmo? De que cidade? Adoro o Brasil” e assim por diante. Enquanto dos meus colegas “Sou da China”, e o povo “Ah, ok”.

Talvez o diferente é o fato do brasileiro ser uma mistura de nações, culturas e identidades e ter conseguido admirar isso. O que os torna fascinantes. Claro, alguns, nem todos. Quando lembro da bancada evangélica política radical brasileira querendo curar gays e dar Bolsa Estupro não sinto nada de fascinante nisso, e sim vergonha.

Só tem gatinhas no Pelourinho
Antes de sair do ônibus fui perto da moça e perguntei: - É brasileira?
Ela: - Sou sim. De Minas e você?
Eu: - Fui feita no nordeste, nasci no sul, morei em Minas e São Paulo.
Ela: - E eu sou de Minas, Rio e Bahia.

Até no nosso país somos imigrantes.

Você sente essa paixão por um compatriota quando está no estrangeiro?

Lílian